turtle-2201433-300x204 O Caso da Tartaruga

A observação da desova de tartarugas-de-couro é uma das grandes atrações turísticas de Trinidad e Tobago, sendo um dos poucos lugares do Caribe em que as tartarugas gigantes voltam ao seu lugar de nascimento para depositar seus ovos. Um dos lugares onde elas podem ser avistadas chama-se Grand Rivière e fica a quase 7 horas de carro da capital, Port of Spain. São duas as etapas da temporada: a desova, que ocorre entre março e agosto; a eclosão dos ovos, que ocorre entre junho e agosto.

Durante minha temporada no Caribe, sempre tive vontade de conhecer esse lugar e ver as tão famosas tartarugas gigantes. Posterguei até agosto, pois sabia que essas atividades em alguns lugares poderiam não ser sustentáveis, e isso me incomodava. Porém, eu precisava ver esse espetáculo. Afinal, quando eu poderia fazer isso novamente? Dirigi quase 8 horas seguidas madrugada a dentro, chegando em Grand Revière às 01:30 da manhã. Elas começam a chegar à praia ao cair da tarde até em torno de uma da manhã. Existiam grandes chances de não ver tartaruga alguma. Felizmente, um guia nos levou até a única tartaruga que ali estava. Não pude ver sua chegada, mas ela estava lá, esplendorosa naquela TOTAL PENUMBRA! Não é permitida qualquer iluminação, pois isso pode afugenta-las. Quando cheguei, ela já cavava… cavava… e cavava. E eu me perguntava: como é possível um animal nadar milhares de quilômetros, arrastar seu corpo de quase 700Kg pela praia, achar um local adequado para desova e cavar… cavar… e cavar?

Até esse momento tudo estava normal. Os guias orientavam os turistas quanto aos hábitos do animal e solicitava cordialmente em baixo tom de voz que ninguém se aproximasse ou utilizasse o flash da câmera. Todos respeitaram enquanto a tartaruga cavava… cavava… e cavava. Ela cavou por cerca de 30 minutos e, por instinto, quando achou que já estava fundo o suficiente, iniciou a desova. Dezenas de ovos eram depositados e, de repente, o guia disse:

– Pessoal, agora é permitido tocar, pois ela está muito cansada e já em processo de desova. Ela não tem mais forças para se retirar ao se sentir incomodada.

Pensei: OI????!!!! E antes que eu terminasse de pensar todos os meus pontos de exclamação e interrogação, todos avançaram em direção à tartaruga: era foto com flash ligado; mão no olho do bicho; criança gritando em diversos idiomas; fazendo ciranda-cirandinha… e eu? Eu estava em estado catatônico. Tentava entender em que planeta essa ansiedade era normal e sobrepunha qualquer tipo de respeito. R-E-S-P-E-I-T-O! Percebi que pouco havia mudado desde que tive vontade de salvar os koalas. Percebi que aquela tartaruga me trazia de volta ao meu motivo de vida: orientar pessoas a simplesmente praticarem o respeito. Afinal, até hoje não vi nada mais eficaz para se atingir a sustentabilidade.

Entendam que um turismo predatório só existe se você, turista, permitir. Assim como o tráfico de drogas só existe se houverem compradores. Uma das regras básicas para um bom viajante é entender-se como apenas um mero observador do lugar. E essa regra básica, totalmente esquecida naquele momento, fez com que eu novamente resgatasse meu “koala”, o porquê da minha existência. Porém, na época, eu tinha um ótimo emprego com um salário melhor ainda. Abandonar tudo para me engajar em um projeto de educação ambiental era inadmissível e eu achei que esse chamado pudesse esperar. Assim como eu, muitos não seguem essa voz interna por não saberem como ou por onde começar e não entendem que qualquer começo é um começo, mesmo que signifique dar alguns passos para trás.

Bem, aqui estou eu, após tantos koalas e tantas tartarugas, após 33 anos de idade, respondendo a esse chamado. Tentando voltar às minhas origens. Afinal, como eu já disse, eu nasci bióloga e por muito anos segui o fluxo que a vida me impôs sem perceber que era justamente no contra fluxo que eu deveria estar. E cá estou eu pedindo a você, viajante de qualquer tempo ou destino que respeite qualquer forma de vida. Não incomode a fauna e flora local. Aja sempre com respeito e mantenha a distância de um observador. Assim, você se torna um exemplo de como ser um viajante responsável, não fere nenhuma lei local, não prejudica nenhum processo ecológico que você desconheça e não entra em atrito com os nativos. Quem adotar o respeito como meta, jamais entrará em uma enrascada. 1f609 O Caso da Tartaruga

Nos vemos na próxima!

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Priscila é Bacharel em Ciências Biológicas pela PUC de Campinas e Mestre em Gestão Ambiental pela University of Queensland, onde iniciou sua carreira na área de Gestão de Projetos e Processos utilizando os conhecimentos da interconectividade de ecossistemas e os adaptando ao ambiente industrial e empresarial.

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