sustentabilidade A relação entre fornecedor e usuário principal como um dos fatores determinantes à Sustentabilidade

A relação entre fornecedor e usuário principal como um dos fatores determinantes à Sustentabilidade

Todas as descobertas e invenções e as relações interpessoais e coorporativas podem ser utilizadas por stakeholders diversos em prol de benefício próprio ou de toda a cadeia de valor. Em resumo, não existe nada que seja essencialmente bom ou mal, mas sim utilizado de forma benéfica ou maléfica. Seguindo a mesma analogia, assim funciona a relação entre usuário principal e fornecedor. A depender de como ambos se entendem como parte dessa relação, a mesma pode ser benéfica (sustentável) ou maléfica (insustentável).

Contradizendo todas as normas de gestão que prezam uma relação saudável de parceria e troca de conhecimento, essa relação no Brasil, em sua maior parte, ainda é insustentável do ponto de vista do negócio e da cadeia de valor, fazendo o fluxo ser unilateral muito mais vezes do que o sistema consegue suportar. Isso porque, no nosso país, ainda se tem uma visão totalmente focada na produção, na qual não se abre espaço para um planejamento estratégico profundo que permita uma parceria saudável e sustentável sem que o fornecedor precise ser extorquido com relação a prazos, preço e qualidade. Quando a produção está em dia, tudo funciona bem. Se não estiver, a expressão “Deus nos acuda” vigora, e o tempo que deveria ser utilizado para analisar possíveis riscos e desperdícios financeiros, sociais e ambientais é utilizado para solucionar emergências e urgências que chegam como “bola de neve”. Sua empresa apresenta produção em dia em 90% do tempo? Para respostas negativas, uma das consequências que pode estar acontecendo é a extorsão de seus fornecedores para acalmar o desespero e suprir uma necessidade unilateral de alcançar um planejamento produtivo difícil de ser alcançado. E como em qualquer relação abusiva, a extorsão é repassada a cadeia de valor de seu fornecedor. É um ciclo sem fim.

Em primeiro lugar, é preciso entender e aceitar que a produção é um resultado e não meta única. Caso contrário, a gestão se torna cega, e riscos e consequências que deveriam estar sendo tratados, não conseguem nem serem visualizados e reconhecidos. Nesse cenário arcaico o usuário principal acredita que adquirindo um projeto / produto / serviço ele tenha dado a incrível, porém veremos que frágil, oportunidade de atende-lo, exigindo que o comprado seja entregue sem qualquer colaboração. A situação piora muito quando o cliente não consegue entender que quando ele exige prazo e custo para “tapar um buraco” em seu planejamento ele perde em qualidade.

E o que acontece depois?

  • A pressa e prazos curtos levam a um planejamento pobre e a um processo de criação falho, o que acarreta em retrabalhos que, no final, podem prejudicar mais ainda os prazos impostos.
  • Um planejamento precário por falta de tempo para planejar e a necessidade imediata de ação levam a gestão de riscos e de mudança pobres, ou até inexistentes, deixando o negócio como um todo vulnerável.
  • Insatisfação da equipe envolvida por estar sempre trabalhando sob pressão, o que para equipes de criação é fatal.
  • Os retrabalhos citados acima, quando atingem a produção, geram desperdícios de matéria prima, aumentando o custo do fornecedor em relação ao orçado e, caso não seja possível reaproveita-la, gerando resíduos que nem sempre tem disposição fácil ou correta.
  • Incapacidade de negociação em compras, já que nessa situação, o fornecedor também acaba virando refém de seus fornecedores que vão conseguir atende-lo no prazo solicitado.

Uma análise bem mais profunda relataria outros prejuízos mensuráveis e imensuráveis, mas não é objetivo desse artigo. Quero apenas instigar uma mudança de consciência da alta direção e dos responsáveis por tomadas de decisão no planejamento estratégico de uma empresa.

Muitos planejadores imediatistas não conseguem vislumbrar todos os prejuízos citados acima. Eles só veem que conseguiram diminuir o atraso ou até cumprir com o cronograma e ficam satisfeitos. Infelizmente, não enxergam os problemas crônicos que trouxeram ou ajudaram a piorar. De qualquer forma, essa cultura só estará enraizada e só será permitida em empresas cuja a alta hierarquia já funcione assim. Um sábio ex-chefe uma vez me disse: a mudança de cultura é igual ao chuveiro, começa de cima.

No pior cenário, no final, obtemos prejuízos econômicos, sociais e ambientais. Esqueçam estoque zero e todas as técnicas que vocês já ouviram um dia, pois uma relação abusiva entre cliente e fornecedor só tende a gerar prejuízos ao longo prazo na cadeia como um todo. Afinal, uma forma de se diminuir prazos é manter um estoque considerável que, para alguns negócios, não seria saudável.

Por outro lado, a sustentabilidade preza pela perenidade do negócio e de sua cadeia de valor. Esse é o cenário que as mais novas metodologias e ferramentas de sistemas de gestão (ex. ISO), de gestão de projetos (ex. PRINCE2 e PMBOK) e de processos prezam: uma relação de parceria entre usuários principais e fornecedores, ainda que não utópica, mas que se fundamenta na comunicação e desenvolvimento de projetos em comunhão.

Caso você seja um Coordenador de Gestão, um Representante de Direção, um PMO ou qualquer outra pessoa que trabalhe com a gestão estratégica da empresa, aconselho o seguinte:

1. Faça um mapeamento de processos do negócio de forma macro, ou, se for o caso, o mapeamento do projeto. Incorpore a cadeia de valor, mas lembre-se de não divagar e abrir muito seu ecossistema. Mantenha o foco!

2. Num primeiro momento, foque nos processos que estão trazendo desperdícios financeiros e os mapeie de forma mais detalhada. Independente da cultura e personalidade empresarial, quando a alta direção consegue enxergar que processos mínimos estão fazendo com que o dinheiro de uma empresa vá pelo ralo, ela pode ser convencida a mudar seu modelo de gestão. Mesmo que sua empresa já seja direcionada por uma consciência mais voltada à Sustentabilidade, ainda sim comece pelo fator financeiro, pois ele vai reforçar os outros.

3. Faça uma correlação de causa e efeito para descobrir o quanto da relação entre fornecedor e cliente está efetivamente prejudicando os negócios.

No final de tudo, mantenha sempre em mente as responsabilidades.

• Como fornecedor:

a) Analisar adequadamente todas as condições de contrato do usuário principal;
b) Manter um plano de gestão de riscos e de mudanças. Qualquer alteração deve ser comunicada ao cliente.
c) Analise bem seus custos para um projeto antes que ele se concretize e para que você tenha ciência da sua margem de lucro.
d) Evite prazos audaciosos o tempo todo, eles só tendem a afundar a organização quando viram uma doença crônica.
e) Faça um planejamento adequado de forma que você não prejudique seu cliente, entendendo suas habilidades e capacidades. Seja honesto!
f) Mantenha as lições aprendidas sempre por perto.

• Como usuário principal:

a) Entender-se como parte do sucesso do projeto, pois você tem a expertise de seu produto e de seu processo.
b) Cuidar de sua cadeia de valor para que seus fornecedores não fechem as portas devido aos anos de pressão crônica. Lembre-se que o mercado é dinâmico e inconstante. Pressionar por melhores prazos e preços em tempos de bonança é diferente de fazê-lo em tempos de crise. O tempo de recuperação é muito maior e o fato de seu fornecedor aceitar o preço imposto não quer dizer que ele possa executar esse custo.
c) Não culpe seu fornecedor por erros de planejamento interno. Evite contratos em que o fornecedor aceita o prazo, mas ambos sabem que os mesmos não serão cumpridos.
d) Mantenha as lições aprendidas sempre por perto.

Entendo e aceito que trabalhar sob pressão é algo que o ser humano vem cultivando há muitos anos e não entenda isso como uma causa para a insustentabilidade entre as relações aqui expostas, pois todos podemos trabalhar sob pressão e ainda manter uma boa parceria.

Você quer um uma ação sustentável para cumprir com os indicadores da sua empresa? Tente romper mitos e o clichê da sustentabilidade. Leve o assunto a um outro nível. Uma relação insustentável entre cliente e fornecedor fere diversos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, mas eu diria que o mais notável seria o de número 12: Produção e Consumo Responsável.

Vejo vocês no próximo artigo! 🙂

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Priscila é Bacharel em Ciências Biológicas pela PUC de Campinas e Mestre em Gestão Ambiental pela University of Queensland, onde iniciou sua carreira na área de Gestão de Projetos e Processos utilizando os conhecimentos da interconectividade de ecossistemas e os adaptando ao ambiente industrial e empresarial.

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