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A Idealizadora

Eu nasci bióloga. Me formar em biologia em 2006 foi apenas uma reafirmação daquilo que nasceu em mim. Porém, os anos seguintes a minha formação não foram fáceis. Iniciei vários estudos tentando bolsas CNPQ e FAPESP: um mestrado em engenharia química e outro em nanotecnologia. Infelizmente, não encontrei o que procurava e, apesar da minha paixão pela pesquisa, nada disso fazia sentido ao meu propósito. Cheguei a trabalhar em um zoológico da região como monitora por um valor irrisório pela simples oportunidade de aprender. Ainda não fazia sentido. Fiz inúmeros cursos de especialização e tentava um emprego na indústria. Tinha em mente que o caminho para a sustentabilidade passava por lá. São as grandes indústrias as formadoras de opinião. São elas a ditarem moda, a dizerem o que precisamos comprar, a extraírem os recursos e a processá-los. São os grandes grupos responsáveis pela empregabilidade, gerando mudanças econômicas, culturais e sociais. Eu sempre enxerguei a importância de grupos menores e pequenas iniciativas, mas se eu realmente quisesse mudar o mundo eu teria que estar dentro dessas grandes corporações. Priscila Passos e o Koala Porém, ninguém me empregava. Então, eu precisei mudar meus planos. Decidi estudar fora, concluindo meu mestrado na Austrália em dezembro de 2009 e me formando Mestre em Gestão Ambiental pela University of Queensland. Conheci gênios e mestres mundiais, ferramentas e teorias inovadoras e me esforcei como nunca. Em minha tese estudei o comportamento dos pássaros em remanescentes de florestas na cidade de Brisbane. Acordava às 3 da manhã para desbravar remanescentes florestais sozinha, em um país diferente e madrugada afora. Passava as manhãs nas matas; a tarde compilava os dados. Aprendi o que é disciplina, comprometimento e cooperação. Aprendi que limite é algo que a gente impõe por medo e que é possível ultrapassar todos eles. Convivi com a saudade. Ah a saudade! É a melhor professora de todas. Tive que seguir regras ferozes de estudo, vocabulário, de plágio, de quantidade de palavras, de pesquisa. Aprendi palavras que não sabia nem em português. Mergulhei em um trainee de 3 meses e conheci a sustentabilidade pelos olhos da engenharia de um país desenvolvido que entende que o equilíbrio econômico não é atingido apenas com produção desenfreada. Desenvolvi minhas noções de mapeamento de processos para solução de problemas ambientais. Ao fim da minha experiência tive a oportunidade de ficar, mas eu precisava voltar ao Brasil para aplicar todo meu conhecimento. Eu tinha que voltar para melhorar a minha pátria. Sim, era assim que eu pensava. E claro, a saudade me dominava. Voltei e enfrentei as dificuldades de uma validação nacional de diploma e ainda não conseguia um emprego na tão sonhada grande corporação. Infelizmente, o Brasil enxerga seus biólogos como eu enxergo sem óculos: com 10 graus de miopia. Comecei a dar aulas de inglês para me sustentar e aprendi um pouco mais sobre o ser humano, sobre mim, sobre minha capacidade de ensinar, ainda que primitiva na época. Foi na mesma época que conheci um empresário que estava interessado em me dar uma chance, mas seria em consultoria de sistemas de gestão. Uma nova jornada de estudos foi iniciada: sistemas integrados, ISO 9001, 14001, OSHAS, Responsabilidade Social, mapeamento de processos, boas práticas, 5S, etc. Assim, uma nova porta de conhecimento se abria: a interdisciplinaridade. Aprendi o que as empresas estavam fazendo de certo e errado, o que as pessoas pensavam, onde estavam as brechas para a sustentabilidade. Em paralelo, eu trabalhava com meu pai na indústria de automação industrial vivenciando o ciclo de recursos / resíduos, conflitos interpessoais, organização, procedimentos, processos. Eu finalmente vivenciava a indústria, mas ainda faltava algo. Foi aí que me fizeram uma proposta para trabalhar e uma empresa brasileira no ramo da construção civil como responsável de qualidade. Não era bem o cargo que eu tinha em mente, mas era o contexto dos meus ideais. Me mudei novamente: Uruguai e Trinidad e Tobago. Tive contato com novas culturas, novas formas de se entender e fazer sustentabilidade e novos sistemas de gestão. Vi muita coisa errada, muito além do que alguma vez eu tivesse visto. Me fiz dura! Fui ao extremo oposto, mas fiz e vi o que precisava fazer e ver para evoluir e atingir o nível multidisciplinar que eu precisava. Hoje sou certificada como gestora de projetos e com toda a bagagem adquirida me sinto pronta a iniciar um novo caminho.

Obrigada a todos que até o momento fizeram parte da minha história, pois aprendi com vocês o bem e o mal, o certo e o errado. Obrigada a todos que me deram oportunidades de trabalho que, para uma menina que queria mudar o mundo, não parecia ser o suficiente. Porém, o foi: suficiente e necessário. Eu aprendi como as indústrias mais poluentes funcionam, desde sua construção até sua operação. Eu aprendi como o ser humano pensa e vi o quão longe ele está de entender o contexto ambiental em termos de riscos financeiros, ecológicos e sociais. Eu vivi mergulhada na insustentabilidade para aprender como superá-la e a mostrar a quem esteja disponível a aprender um caminho mais sustentável. E porquê? Porque é nisso que eu acredito.

Sejam todos bem-vindos!

Com carinho, Priscila Passos